A menos de um ano do Mundial, marcas começam a se posicionar em torno do futebol feminino. Coca Cola já fechou acordo com o Brasileirão Feminino até o fim de 2027, enquanto a expansão do calendário e dos investimentos da CBF cria uma disputa que pode continuar muito além da Copa.
A Copa do Mundo Feminina de 2027 ainda não começou, mas uma das principais disputas relacionadas ao torneio já está acontecendo fora dos gramados.
É a disputa das marcas.
O Brasil receberá entre 24 de junho e 25 de julho de 2027 a primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul. Serão 32 seleções distribuídas por oito cidades sede, colocando o futebol feminino diante de uma exposição que dificilmente seria reproduzida por qualquer outra propriedade esportiva no país no mesmo período.
Para bancos, empresas de tecnologia, telecomunicações, alimentos, bebidas, varejo, mobilidade, material esportivo e outras categorias de consumo, o Mundial representa uma oportunidade evidente.
Mas existe uma oportunidade maior.
A marca que entrar no futebol feminino apenas durante a Copa estará comprando exposição.
A empresa que entrar antes e permanecer depois poderá ajudar a construir um mercado.
Coca Cola já se posicionou
Um movimento recente oferece uma pista sobre o que pode acontecer nos próximos meses.
Em julho de 2026, a Coca Cola tornou se patrocinadora das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, da Copa do Brasil e também do Brasileirão Feminino A1.
O acordo começou imediatamente e será válido até o fim de 2027.
No futebol feminino, a parceria prevê entregas específicas, incluindo presença de marca, conteúdo digital e ações especiais nas competições.
A data de encerramento chama atenção.
- 2027.
O contrato atravessa justamente o período em que o Brasil receberá o maior evento de futebol feminino do planeta.
Isso não significa que a Copa seja a única razão comercial para o acordo. Mas mostra como propriedades nacionais começam a ganhar relevância em um ciclo no qual a atenção sobre a modalidade tende a aumentar.
O ativo não é apenas a Copa
Existe uma distinção importante para o mercado publicitário.
Os direitos comerciais da Copa do Mundo pertencem à FIFA e seguem regras próprias.
Patrocinar a Seleção Brasileira é outra propriedade.
Patrocinar o Brasileirão Feminino é outra.
Patrocinar um clube é outra.
Fechar contrato individual com uma atleta é outra.
Para uma empresa, portanto, existem diversas maneiras de participar da economia criada ao redor de 2027 sem necessariamente ser patrocinadora oficial do Mundial.
Essa multiplicidade pode produzir uma corrida comercial.
Empresas que não conseguirem ou não desejarem acessar o inventário oficial da FIFA poderão procurar clubes, jogadoras, competições, mídia, influenciadoras e experiências ligadas ao futebol feminino.
É nesse mercado paralelo ao megaevento que parte das oportunidades pode aparecer.
O futebol feminino brasileiro está maior antes da Copa
A diferença em relação a ciclos anteriores é que existe uma estrutura doméstica mais robusta para receber esse interesse.
Dados divulgados pela CBF em julho mostram que, entre 2021 e 2026, o número de competições femininas organizadas pela entidade passou de seis para nove.
A quantidade de clubes participantes de competições adultas ou de base aumentou de 58 para 79.
O número de partidas saltou de 398 para 712.
Isso representa crescimento de 79% em cinco anos.
Para patrocinadores, calendário importa.
Uma marca precisa de pontos de contato.
Quanto mais jogos, clubes e competições existem, maior o inventário disponível para construir relacionamento com o consumidor.
CBF projeta mais de R$ 685 milhões
A entidade também colocou dinheiro no centro de sua estratégia.
Entre 2024 e 2029, a CBF projeta investir mais de R$ 685 milhões nas competições de futebol feminino.
O planejamento inclui crescimento de calendário, aumento de partidas, desenvolvimento de categorias de base e maiores cotas e premiações.
No Brasileirão Feminino A1 de 2026, por exemplo, cada um dos 18 clubes recebeu cota de R$ 720 mil pela participação na primeira fase, o dobro do ano anterior.
A campeã recebe R$ 2 milhões e a vice campeã, R$ 1 milhão.
Isso ainda está distante da economia do futebol masculino.
Mas a direção é relevante.
Existe mais produto.
Mais dinheiro.
Mais partidas.
Mais transmissão.
E, consequentemente, mais inventário comercial.
A Copa pode reduzir o risco percebido pelas marcas
Um dos obstáculos históricos do esporte feminino foi a percepção de risco comercial.
Empresas questionavam audiência.
Visibilidade.
Retorno.
Frequência de exposição.
Capacidade de ativação.
Um Mundial realizado dentro do Brasil modifica parte dessa equação.
Durante aproximadamente um mês, futebol feminino estará no centro da agenda esportiva nacional.
Seleção Brasileira.
Grandes estrelas internacionais.
Estádios.
Transmissões.
Redes sociais.
Eventos.
Torcedores estrangeiros.
Conteúdo diário.
A Copa funciona como uma enorme campanha de aquisição de consumidores para a modalidade.
Para patrocinadores, isso reduz o custo de explicar o produto.
O público já estará olhando.
O verdadeiro negócio começa antes do Mundial
É justamente por isso que esperar junho de 2027 pode ser uma estratégia cara.
Quando a atenção aumenta, o preço dos ativos tende a acompanhar.
Atletas ganham seguidores.
Clubes conquistam audiência.
Espaços comerciais ficam mais disputados.
Novos patrocinadores aparecem.
A marca que entra antes possui uma vantagem.
Pode construir associação legítima com a modalidade antes do pico de exposição.
Em vez de parecer uma empresa que chegou apenas para aproveitar a Copa, pode demonstrar histórico.
Esse histórico possui valor.
Especialmente no esporte feminino, onde consumidores frequentemente observam se o apoio das marcas é recorrente ou circunstancial.
Atletas podem se tornar propriedades valiosas
Existe uma oportunidade especialmente importante no marketing individual.
Jogadoras da Seleção Brasileira estarão diante da maior vitrine possível dentro de seu próprio país.
Uma boa campanha em 2027 pode transformar uma atleta em personagem nacional.
Isso significa que empresas não precisam limitar suas estratégias a clubes e competições.
Podem construir embaixadoras.
Publicidade.
Conteúdo.
Produtos licenciados.
Campanhas digitais.
Eventos.
Experiências.
A atleta funciona simultaneamente como esportista e canal de mídia.
E as redes sociais tornam essa relação ainda mais valiosa.
Nike entra em 2027 com novo contrato
A relação da CBF com a Nike também ganha uma nova dimensão justamente no ano da Copa.
O novo contrato entre as partes entra em vigor em janeiro de 2027 e vai até 2038.
Pela primeira vez, a CBF terá participação em royalties sobre as vendas das camisas da Seleção Brasileira, além de direitos relacionados ao licenciamento de produtos e possibilidade de abertura de lojas. A parceria cobre todas as seleções brasileiras, masculinas e femininas.
Isso adiciona uma dimensão importante ao Mundial.
Merchandising.
Se a Seleção Feminina construir uma campanha relevante em casa, a demanda por camisas e produtos pode se tornar outra fonte de monetização do evento.
Torcida também é consumo.
Outras grandes marcas já estão dentro do ecossistema
A CBF já possui uma carteira ampla de parceiros.
Nike, Ambev, Vivo, Itaú, iFood, Volkswagen, Uber, Cimed e Sadia estão entre as empresas com relacionamento comercial divulgado pela entidade.
Isso significa que algumas das maiores empresas do país já possuem acesso ao ecossistema das Seleções Brasileiras.
A Copa Feminina cria uma oportunidade para transformar contratos institucionais em ativações específicas para mulheres, atletas e novos públicos.
A questão será observar quais marcas realmente farão isso.
Ter direitos comerciais não significa necessariamente construir relevância.
Ativação será fundamental.
Bancos podem disputar relacionamento
Serviços financeiros possuem uma oportunidade evidente.
Ingressos.
Viagens.
Hospitalidade.
Benefícios.
Cartões.
Experiências.
Cashback.
Programas de relacionamento.
O futebol oferece uma quantidade enorme de pontos de contato para bancos e fintechs.
No esporte feminino existe ainda a possibilidade de desenvolver produtos e campanhas especificamente associados ao crescimento da modalidade.
A empresa deixa de simplesmente colocar sua marca em uma placa.
Pode financiar experiências.
Telecom e tecnologia podem disputar audiência
Empresas de telecomunicações e tecnologia também possuem aderência natural.
Uma Copa moderna é consumida simultaneamente pela televisão e pelo celular.
Vídeos.
Estatísticas.
Redes sociais.
Streaming.
Conteúdo em tempo real.
Comunidades.
Isso cria oportunidades para conectividade, dispositivos, aplicativos, inteligência artificial e experiências digitais.
O estádio representa apenas uma parte da audiência.
Milhões de consumidores estarão acompanhando o torneio remotamente.
Varejo pode transformar torcida em produto
Existe também o mercado de consumo.
Camisas.
Tênis.
Roupas.
Colecionáveis.
Produtos licenciados.
Itens relacionados às jogadoras.
A Copa pode transformar símbolos do futebol feminino em produtos de massa.
Para varejistas e marcas de consumo, essa é uma oportunidade particularmente interessante porque permite monetizar a audiência diretamente.
A torcida não apenas assiste.
Ela compra identidade.
O desafio é não desaparecer em agosto
Esse talvez seja o ponto mais importante para o futebol feminino brasileiro.
A final da Copa está prevista para 25 de julho de 2027.
Em algum momento, agosto chegará.
As seleções estrangeiras irão embora.
A cobertura internacional diminuirá.
A FIFA desmontará sua estrutura operacional.
E o futebol feminino brasileiro continuará existindo.
Brasileirão.
Copa do Brasil.
Categorias de base.
Clubes.
Atletas.
É nesse momento que será possível avaliar se 2027 realmente transformou o mercado.
O legado comercial precisa permanecer
A FIFA afirmou que a escolha das oito cidades sede considerou não apenas o sucesso operacional e comercial do Mundial, mas também o potencial de impulsionar o crescimento e a visibilidade de longo prazo do futebol feminino brasileiro.
Essa última parte é fundamental.
Um megaevento produz atenção extraordinária.
Mas atenção temporária não constrói uma indústria.
Para isso, é necessário converter audiência em receita recorrente.
Patrocínios de clubes.
Direitos de mídia.
Bilheteria.
Merchandising.
Eventos.
Conteúdo.
Programas de base.
Contratos individuais com atletas.
O dinheiro precisa continuar circulando quando a Copa terminar.
2027 pode redefinir o preço dos ativos
Se o Mundial aumentar audiência, seguidores, presença nos estádios e interesse de patrocinadores, existe uma consequência econômica natural.
Os ativos podem ficar mais caros.
Uma jogadora com determinada quantidade de seguidores hoje pode possuir uma audiência muito maior depois da Copa.
Uma propriedade comercial do Brasileirão Feminino pode ser negociada por valores diferentes.
Clubes podem ganhar poder de negociação.
Novas marcas podem entrar.
É por isso que existe vantagem potencial em chegar cedo.
Empresas não estarão apenas patrocinando o presente.
Estarão tentando comprar exposição antes de uma possível valorização.
A disputa das marcas já começou
A Coca Cola entrando no Brasileirão Feminino até o fim de 2027 é um sinal.
O novo contrato da Nike começa justamente no ano do Mundial.
A CBF está ampliando calendário, partidas, cotas e investimentos.
E o maior evento do futebol feminino chegará ao Brasil dentro de menos de um ano.
As condições para uma corrida comercial estão sendo construídas.
Mas a principal oportunidade não será necessariamente colocar um logotipo diante de milhões de pessoas durante algumas semanas.
Será descobrir como transformar essas semanas em anos de relacionamento.
A Copa do Mundo Feminina de 2027 pode entregar ao Brasil algo extremamente raro no Sport Business.
Um momento em que audiência, cultura, grandes marcas e esporte feminino estarão concentrados no mesmo lugar.
Quem entrar apenas para a Copa estará comprando mídia.
Quem souber permanecer poderá estar comprando posição em um mercado antes de sua próxima fase de valorização.
