Primeiro Mundial feminino realizado na América do Sul coloca turismo, marcas e indústria esportiva diante de uma oportunidade histórica.
Quando a bola rolar em 24 de junho de 2027, o Brasil não estará apenas recebendo as principais seleções do futebol feminino mundial. Estará colocando em movimento uma operação econômica estimada em R$ 8,8 bilhões.
A projeção faz parte do Mapeamento do Potencial de Captação e Internacionalização de Eventos Esportivos no Turismo Brasileiro, estudo elaborado pela FGV Projetos a pedido da Embratur e divulgado em julho de 2026.
Segundo o levantamento, a preparação e a realização da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027 devem acrescentar aproximadamente R$ 3,8 bilhões ao Produto Interno Bruto brasileiro, gerar 73,7 mil postos de trabalho diretos e indiretos, distribuir R$ 4,5 bilhões em rendimentos, entre salários e lucros, e proporcionar cerca de R$ 928 milhões em arrecadação tributária.
Os números ajudam a dimensionar um torneio cujo impacto deverá ultrapassar as quatro linhas.
Turismo e operação movimentam bilhões
A estimativa de R$ 8,8 bilhões está dividida principalmente em dois vetores.
O primeiro é o público. O deslocamento de turistas brasileiros e estrangeiros e os gastos associados à viagem devem gerar aproximadamente R$ 4,7 bilhões em atividade econômica direta e indireta, segundo a FGV.
Hospedagem, alimentação, transporte, comércio, entretenimento e serviços estão entre os setores potencialmente beneficiados pela circulação de torcedores durante a competição.
O segundo vetor está ligado à própria organização do Mundial. Desembolsos da FIFA e gastos relacionados às estruturas necessárias para a operação do torneio representam aproximadamente R$ 4,1 bilhões do impacto projetado.
Para efeito de comparação, a Embratur afirma que os dez maiores eventos esportivos recorrentes realizados no Brasil movimentaram, juntos, cerca de R$ 4,56 bilhões em 2025. A projeção para a Copa Feminina é, portanto, próxima do dobro desse valor concentrado em um único megaevento.
Brasil volta ao centro da indústria global do esporte
A competição será disputada entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, com 32 seleções.
Será a primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul, um marco para um continente cuja relação histórica com o futebol contrasta com um mercado feminino que ainda possui espaço considerável para expansão.
O torneio terá partidas em oito cidades: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Mineirão, Estádio Nacional de Brasília, Castelão, Beira Rio, Arena de Pernambuco, Maracanã, Arena Fonte Nova e Arena Itaquera receberão os jogos.
A utilização de arenas que já receberam partidas da Copa do Mundo masculina de 2014 também diferencia o evento de megaeventos dependentes da construção de grandes estruturas permanentes.
Mas a infraestrutura esportiva representa apenas uma parte da equação.
Durante aproximadamente um mês, cidades sede se transformarão em plataformas de consumo de esporte, turismo e entretenimento, criando oportunidades para hotéis, companhias aéreas, bares, restaurantes, empresas de mobilidade, produtores de eventos, plataformas digitais e empresas ligadas à economia criativa.
Futebol feminino chega a 2027 em outro estágio comercial
O contexto internacional ajuda a explicar por que o impacto econômico projetado para o Brasil chama atenção.
A Copa do Mundo Feminina de 2023, disputada na Austrália e na Nova Zelândia, estabeleceu novos patamares de público para a competição. Quase 2 milhões de espectadores passaram pelos estádios durante os 64 jogos, segundo números divulgados pela FIFA.
O torneio de 2027 manterá o formato de 32 seleções e 64 partidas.
Esse crescimento transforma também a maneira como o futebol feminino é analisado comercialmente.
O interesse de patrocinadores, emissoras, plataformas digitais e investidores acompanha uma transformação mais ampla da indústria esportiva, na qual propriedades femininas deixam progressivamente de ser tratadas apenas como iniciativas institucionais e passam a disputar audiência, consumidores e investimento publicitário.
Para as marcas, o Mundial realizado no Brasil representa uma combinação difícil de reproduzir: um grande evento global, o futebol como principal plataforma esportiva do país e um mercado feminino em processo de expansão.
A oportunidade vai além dos grandes patrocinadores
Os bilhões projetados para 2027 não estarão concentrados apenas nos contratos globais da FIFA.
Uma parcela relevante do impacto econômico ocorrerá fora dos estádios.
Fan zones, ativações de marcas, produção de conteúdo, experiências para torcedores, hospitalidade corporativa, turismo esportivo, comércio, licenciamento, alimentação e eventos paralelos tendem a criar uma cadeia de oportunidades para empresas de diferentes portes.
Para o Sport Business brasileiro, esse talvez seja um dos principais legados potenciais do Mundial.
Megaeventos funcionam como aceleradores. Eles aumentam audiência, atraem capital, estimulam novos produtos e colocam empresas diante de uma concentração excepcional de consumidores, atletas, patrocinadores e organizações esportivas.
O desafio será transformar esse pico de atenção em negócios capazes de continuar operando depois da final.
O verdadeiro legado começa depois do apito final
É importante observar que os R$ 8,8 bilhões são uma estimativa econômica, e não uma receita garantida.
O impacto efetivo dependerá de fatores como fluxo turístico, ocupação das cidades sede, gastos dos visitantes, execução da operação, desempenho comercial do evento e capacidade de empresas e governos aproveitarem a demanda gerada pelo torneio.
O mesmo vale para o legado esportivo.
Uma Copa pode aumentar temporariamente a audiência do futebol feminino. Transformar essa exposição em campeonatos mais fortes, clubes estruturados, melhores contratos comerciais, categorias de base e novos patrocinadores exige continuidade.
É justamente aí que 2027 pode representar uma inflexão.
Se o Brasil conseguir converter o interesse provocado pelo Mundial em propriedades esportivas sustentáveis, novos produtos de mídia, experiências, comunidades e negócios, o impacto econômico da Copa poderá ultrapassar o período contabilizado pelo estudo da FGV.
Entre R$ 8,8 bilhões projetados em movimentação econômica, 73,7 mil postos de trabalho e oito cidades recebendo o principal torneio do futebol feminino mundial, o país terá diante de si mais do que um grande evento esportivo.
Terá uma oportunidade de transformar atenção em mercado.
E, para a indústria esportiva brasileira, talvez esse seja o jogo mais importante de 2027.
